domingo, 12 de setembro de 2010

olhos


Olhos: 
brilhantes da chuva que caiu 
quando Deus me mandou beber. 

Olhos: 
ouro, que a noite me contou nas mãos, 
quando colhi urtigas 
e fiz arrepender as sombras dos Provérbios. 

Olhos: 
noite, que sobre mim resplandeceu, quando escancarei o portão 
e atravessado pelo gelo invernoso das minhas fontes 
saltei pelos lugares da eternidade. 

Paul Celan, in "Papoila e Memória" 
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

sentir...

Não sei a diferença entre dor e procura... a dor da procura, a dor de encontrar, preencher e deixar ir. A dor completa o que é imperfeito, não pode ser perfeito, pode apenas tentar sentir perceber que é possível e ficar com a dor... a vida é feita de amor? Pq é preenchida de dor? Será o preenchimento descobrir a vontade de amar? Ou de proteger o que se diz seu e sentir sangrar o que não pertence  por ter o pertencente dito seu necessário de proteção? Então amar é deixar a dor tomar conta do ser, e de tanto doer, acostuma-se e não faz mais sentido não sentir dor. Deixar partir é forma de amar? Querer proteger é forma de amar? Querer  ficar é sinal de dor? Defina amor e dor? Não existe um sem o outro.... não consigo as palavras certas. Nem as quero mais...  se permitir sentir é estragar o que parecia perfeito, não quero permitir...
O que é simples? Se o mais simples “ver” torna insuportável não estar... compartilhar...
Egoísmo? Umbigo? .... revolta... apenas revolta...
Estou com dor... estou  com pétalas fechadas, amassadas, ainda não é hora de cair, mas já vi que o sol preenche mas também esconde quando a noite cai.  Vi, vivi, e quero muito ainda, mas dia após dia vejo que sorrisos machucam... encantam mais machucam, pq sorrir, se no final sempre haverá lágrimas?
Me esconder? Não... apenas esperar mais um dia... não vou esperar nem procurar por  um “ver” por onde passo. Apenas mais um dia...
Hoje eu não quero nada além de não me lembrar de nada que me faça doer... não quero lembrar... apenas  não sentir...   não tão simples.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Poeta só



Prende-me tua pele 
ao perfume dos teus seios 
e sinto que o mundo em mim se fechou. 

Jardins de vida me trazes, 
odor de brilho aberto, 
em voo de gaivota 
rente ao mar. 

Esse fulvo encontro 
me encanta à noite 
se à janela 
procuro o entrelaçado 
da tua memória. 

Ouço a noite 
no céu estelar 
cantar a nossa solidão: 
o meu coração perdido 
em teu olhar, 
e o odor da tua pele 
por mim espera 
para que em ti se levante. 

Carlos Melo Santos, in "Lavra de Amor"

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mãe

Dantes, quando a deixava, 
As férias já no fim, 
Ela vinha à janela 
Despedir-se de mim. 

Depois, quando na estrada, 
Olhava para trás, 
Deitava-me ainda a benção 
Para que eu fosse em paz. 

Dali não se movia, 
À vidraça encostada, 
Até que eu me perdia 
Já na curva da estrada. 

Hoje, se olho, calo-me 
E baixo os olhos meus! 
Já não vem à janela 
Para dizer-me adeus! 

II 

Chove, e a chuva é fria. 
Noite! Nos montes distantes 
O Inverno principia. 
Um Inverno como dantes. 

Ao redor do lume aceso 
Todos ficamos a olhar... 
Todos não, não somos todos, 
Porque há vazio um lugar. 

Esse lugar era o dela, 
Que ninguém mais preencheu. 
Mesmo com vida, na terra, 
Era uma estrela no céu. 

Alfredo Brochado, in "Bosque Sagrado"


Para sempre




Por que Deus permite 
que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'


Quando eu for pequeno...


Quando eu for pequeno, mãe, 
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
                                                       [pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"




Um ano e 9 meses... e o fio da Saudade me faz querer ser pequena para estar contigo... Te amo minha Mãe.