quinta-feira, 17 de março de 2011

Olhar

Observo os olhares perdidos nas praças.
Já não esperam nada. E se esperam, esperam tropeçar no caminho não imaginado
Esperam o que não sonharam. Esperam a paixão que não aconteceu.
Os olhares, em seus ecos perdidos carregam dores dos dias passados.
Os olhares não tem foco
Já não tem direção
Os olhares perdidos da praça
já não temem o tempo
Já não temem a hora
Já não vangloriam das vitórias
e nem descrevem as derrotas.
Os olhares perdidos esperam apenas encontrar uma lua que iluminem seu "sol".

Quem?

Sinto frio, na espinha, no estômago.
Calafrio dessa (in)dependência diante da qual me descubro
tão honestamente despreparada.
Não me acho entre os livros nem nos meus avessos.
Não tenho respostas em divã de analista.
Sou vulnerável, recalcada e materna.
Sou firme, despudoradamente sem vergonha e egoísta quando quero....
Quero muito ainda ser tudo isso....
Mas quem cuidará de tudo isso? Eu?

Em tempo...

Pimenta ... vermelha, rosa, pura.
Olhos de primavera
Língua na boca alheia
Verso mastigado
retorna, remete a mim mesma
ecoa no eu, há perdas
Tem ganhos
Rimas que chegam
Pedra que voa
Olhos além do muro
criou asas
Não tem volta
Voa borboleta
e volte quando sentir saudade...

Juscélia Sousa

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Trinta e três


Mulher água diluída em gotas, essências da vida.
Mulher fogo, trepidar e brasa. No verão de agora.
Mulher cinza dos tempos de outrora. Dos invernos de rigor e glórias.
Mulher fênix que surge nestes dias entre os três e os trinta, formando seus trinta e três manifestos em ser “Mulher”.
Contesto os efeitos
contexto dos anos
 danos da vida,
dona de mim...
Cultivo o gozo intenso do viver, pé na terra molhada e lambuzada de palavras escondidas e amassadas que reguei ontem.
Os dias que chegam como as paredes invisíveis e imaginárias, tiranos e belos.
Os contemplo nu... no vazio.
Quero tudo...
Quero dar chance aos meus ouvidos e minha sensibilidade neste imutável itinerário do seguir em frente.
Quero dizer a verdade sem atalhos.
Quero ser simples tentando ser bela aos meus olhos.
Quero ser interessante e singela, com direito a sorrisos e chinelas.
Quero degustar um bom vinho ao som de Jazz ou quem sabe aceitar aquele tango do convite que ainda não veio.
Quero café com leite quente, cama macia e colo.
E na essência dos três para não denunciar as madrugadas frias,
Quero colocar-me nua... observar, chamar, partir...
Tudo isso me compõe e me destrói.
Desprezo certas regras pacatas com confidências repetitivas.
Mas por querer buscar sempre o belo recomendo a mim mesma ter cautela.
Por isso, agora, eu adoro versos
Ladrilhos e desejos
Desarmada e  intacta
tantas notas musicais em mim agora... nestes bem vindos trinta e três anos.... 

Juscélia Sousa

Entre o olhar e o sorriso


Um olhar que observa o vento e o repouso dos muitos “ais” passados. Um coração imaginado costurado, remendado e reconstruído sente no vento um cheiro de sorriso novo.
O olhar de longe percebe no alvo claro a indizível ternura, matéria nobre do querer.
Então o coração dito cheio parece copo vazio à procura de água, água proibida, água que vem da boca de mel, inebriante, sagrada, partilhável.
Por sobreviver aos invernos de tantos danos, tantas dúvidas, denúncias e medos, a claridade honrada do sorriso fez o olhar palpitar em graça e força. E toda oferta duplicada e vulcânica do coração veio à tona querendo corpo livre, pois a alma já é toda contradição.
O olhar desprende. O sorriso flui. A paixão acontece, assim, sem hora marcada, sem previsão, num banho gradual, dual, e abundante dos sentidos postos à prova.
A surpresa do olhar é perceber que pode sim... aprender com o sorriso, ensinar com o olhar... desvendar as partes mais antigas da alegria dupla e densa mais uma vez sentindo-se “menino”.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Vilarejo

Imagino que o parabrisa inquieto durante a chuva severa na volta para casa possa indicar a tranquilidade e mostre que após a chuva chegue a merecida calmaria. Paletas do vai e vem constante e cada vez mais rápidos... A chuva que bate forte no vidro e no asfalto não trás a mesma alegria das primeiras chuvas de primavera, da chuva que bate na grama verde de Minas. Lá em Minas, no recanto bucólico onde a porteira avisa que é hora de preparar o novo café, devaneio de saudade no meio do trânsito caótico.
No ar gelado do dito conforto das quatro rodas, espero o trânsito fluir. O música de Marisa Monte incendeia minha alma e retira as tensões das luzes dos carros com medo da chuva à espera de passagem. Entre o sinal vermelho vendo o Amor passar lentamente, ele sempre passa no sinal vermelho, entre o laranja e o vermelho para ser mais precisa. É final do dia, cansaço, ruídos, sinalização com chuva, muita chuva, dúvidas, freio, casa, telefone, e só.
Aumento o volume e acompanho em voz doce a Marisa, "à um vilarejo ali onde areja um vento bom na varanda.... paraíso se mudou para lá.....
Os minutos passam, a chuva continua e percebo o desejo de ir ao Vilarejo de Marisa, então deixo a doce voz me levar......


Bem vindos ao meu Vilarejo de Sonhos